Se formos buscar á alma do povo, clara, ingénua e simples também de Norte a Sul, encontraremos a sua musa tratando a cortesã.
Ha mesmo n*essas quadras ternas um fundo nativo de sentimentalidade e
de fanatismo que as tornam pequenas jóias invulgares d'essa extraordinária,
riquíssima, litteratura. No poema Albaninha do cancioneiro transmontano,
apparece expressa a mesma idéa da legislação antiga,
da mulher peccadora a quem o matrimonio redime
E' o caso de dois irmãos fidalgos que dormiram com
Albaninha e dizem :
Responòeu o mais novinho
— Irmãos vamos a casá-la?
Muito ouro e muita prata
Temos nós para lhe Ôar;
Co'a fama òe um granòe ôote
Alguém a ha òe acceitar. *
As quadras do Norte teem um tom de maior religiosidade que as do Centro
e do Sul. Assim é que ouvimos.
Coitadinha òe quem cria
Uma filha para o faôo
P'r'a ver òe canto em 'squina
Aos pontapés ò'um malvaòo. ^
De Vinhaes — Rev Lusitana, vol. IX, pag. 311
Viila Real — Rev. Lusitana^ vol. IX, pag. 257.
Se vires a mulher perõiòa,
Não a trates com ôesõem :
Porque Deus também castiga,
Não òiz quanôo nem a quem. '
O' minha mãesinha
Não me chame sua filha :
Eu sou uma òesgraçaôa,
Que nasci p'rá triste viõa. -
Tenho ua prima no Porto,
Outra no cAes ôa Ribeira :
A òo Porto era bem boa,
Se não fosse rabaceira. •*
Oh ! mulher ! oh prostituta !
Rainha ô'elle penar !
Só tu foste a causadora
D'eu á Òisgracia chigar. '
Eu fui a mais õesgraçaòa
Das filhas ôe minha mãe ;
ToÒas tem a quem se cheguem
Só eu não tenho ninguém. *
' - Ag. Campos e Alb. Oliveira -Mil Trovas, CCCLXXVI
Que Deus também castiga.
- — Rev. Lusitana, vol. X, Trancoso.
As canções da Beira teem ainda a mesma côr litteraria das antecedentes.
Quem tiver filhas no munòo
Não fale Das malfaòaôas ;
Porque as filhas òa Desgraça
Também nasceram honraôas. *
Das filhas Ôa Desventura
Devemos ter compaixão ;
São mulheres como as mais,
Filhas De Eva e ADão. ~
Minha mãe chamou-me Rosa,
Tinha De ser DesgraçaDa ;
Pois não ha nenhuma Rosa
Que não seja DesfolhaDa. ^
Quem se viu como eu me vi. . •
E se vê como eu me vejo ! . . .
Não se lembra mais Do munDo ;
Só Da morte tem Desejo. *
O' pAes que íinDAs as filhas
Não faleis Das maifaDaDas :
As filhas Da Desgraça
Também nasceram honraDas.
Historia do fado,
Não me fales á esquina.
Que eu não sou mulher òo munòo ;
Vem-me falar ao postigo
Bem sabes aonòe Ôurmo. '
As da Extremadura, Alemtejo e Algarve
propendem para a ironia : E se esta
Os meus pães me abanòonaram
Ninguém já tenho ôos meus ;
Sou a filha òa òesqraça
Vivo ôa graça Òe Deus. -
é commovida, as que se seguem bem mostram que
outra é a feição das gentes, mais citadINA e menos
sentimental:
Eu amara-te, menina
Se não fora um senão,
Seres pia õe agua benta
OnÒe toòos põem mão. '
A mulher Òo meu visinho
E' uma santa mulher ;
Dá os ossos ao mariòo,
E a carne a quem ella quer. '
Se os homens morressem toòos
A' bocca Òe uma espingaròa.
Não haveria no munòo
Tanta mulher òesgraçaòa. '
Quanto a Lisboa é por excellencía a cidade do
Fado canção e é aqui que na banza a cortesã carpe
a sua desventura: *
Os meus beijos são gelaòos
E o meu coração é frio,
Nos lábios tenho a mentira,
O puôor òe mim fugiu.
No infame lupanar
Tuòo é nQJento lameiro,
Sorrir quanôo os olhos choram,
Venòer amor a òinheiro.
An^a cá mulher peròiòa
Eú te quero abraçar,
Na flor Òa tua viòa
A honra te fui roubar.
Infeliz creança bella.
Peròiòa p'lo seòuctor,
_ Porque assim a òesgraçaste
Com tão ruòe òesamor?
Por ti, a quem tanto amei.
Fui òesprezaòa, esqueciòa.
Hoje vivo lamentanòo
A minha honra peròiòa.
Da virgem faz-se a peròiòa,
Tuòo sofre transição ;
Do amor puro vem gloria,
Do impuro a peròição.
A triste canção do sul Òe Alberto Pimentel, Lisboa, 1904 e
os Fados e Canções de Portugal òe ]oão òo Rio, Rio òe Janeiro.
O meu amor ê ruFia,
Eu rufia também sou ;
Eu rufia, elle rufia,
A gente cá se ageitou.
Guitarra, lyra òivina
Onòe canta a sorte varia,
Em que chorou a Severa
E lagrimeja a Cezaria !
Se tens empenho em saber
Qual é o canto aòoraôo
V7ae ao cole òa Severa
Pergunta pelo seu fado.
Anjo cahiòp uma vez
E' baniòo entre os mortaes
Porque as leis sociaes
O entreolham òe revez.
Por tua immensa loucura,
Tão òevassa te tornaste !
Pae e mão tuòo òeixaste
Com pranto e com amargura.
Foi-se a graça e formusura
Dos festins òo lupanar
Continua a porta aberta
Mas ninguém lá quer entrar.
Chorae, rapazes, chorae,
Guitarra toca com òor,
Morreu a Borboleta ^
Queimada em fogo Ò'amor !
E' òigna Ôe compaixão
A jovem ôesventuraòa,
Que peròeu õa honra a flor
Senòo òepois òesprezaòa.
Não sabes oh prostituta,
O fim que foste buscar,
Teu corpo feito em bocaòos
Na valia irá acabar !
Para matar a fome, um õia
Fui minha honra venôer,
Hoje peço á socieòaòe
A honra que me fez peròer.
Oh meu pae, meu queriòo pae,
Não fui só eu a culpaba.
Era nova e não pensei,
Cahi em falsa cilaõa, '
Quem anôa no triste Faòo
Nunca poõe ter bom fim;
Quem mal anòa, mal acaba.
Ponham os olhos em mim.
Debaixo Õo frio chão,
Onde o sol não tem entraôa,
Abra-se uma sepultura
Finòe o faòo a òesgraçaòa.
Rapazes quanòo eu morrer
Gravem-me na sepultura :
Aqui jaz mimo ôo Faòo,
Que morreu sem ter ventuRA
Ai o amor õas ôo faôo
Não ha nenhum como o ô'ellas !
Baixo, que arrasta no chão
Alto que chega ás estreitas, »
Se percorrermos a nossa legislação veremos a parle
importante que a cortesã e a reformação dos costumes nella occupa.
D. Affonso Henriques estabelecia
que a aleivosa, a mulher adultera, fosse queimada, e
que á mulher torpe que insultasse mulher honesta
cinco açoutes por cima da camisa fossem dados. Pa-
rece que por aquelles tempos era grande crime o in-
sulto, porque nos Estatutos da Confraria de Santa
Maria do Castello de Thomar de 1388 citados por
Viterbo «O confrade... que chamar á Confrada:
Hervoeira: ou Aleivosa: ou ladra:» pagava «V soldos á Confraria
D. Affonso IV/ é o primeiro a determinar «que as
meretrizes vivessem em bairros separados da outra
gente e houvessem signaes e divisas para se destin-
^uirem das mulheres honestas e honradas». - Parece
porem que esta lei nunca foi cumprida pois nas cortes de Elvas de 1399
os povos pediram a D. Pedro
I que ella se effectivasse, insistindo na questão do
trajo differencial ao que o rei não accedeu para que
as pobres não perdessem nas roupas que possuíam.
Em 1481 nas cortes de Évora os moralistas voltaram
á carga : «que as rameiras, e que só fazem por hum
homem, não usem de mantilhas: que andem em cor-
po, e sem chapins, com veos açafroados, para que
sejam distinguidas das molheres honestas.» * Em Hes-
panha as cortesãs alem do toucado cor de açafrão
eram obrigados a usar um pente brilhante na cabeça..
Quando pelo dobar dos tempos, o pudibundo D.
Sebastião legislou, - então foram ellas obrigadas a ter
ruas próprias «por se evitarem os muitos inconve-
nientes, que se seguem de viverem e morarem mis-
ticamente com a outra gente.» Reuniu os vereado-
res, o Governador da Casa do Civil e outras pessoas
gradas. D'essa reunião se assentou que «todas as
molheres solteiras que publicamente recolhem homens
em suas casas por dinheiro, se passem logo, e vivam
d'aqui em diante nos bairros abaixo declarados: s.
nos becos dos açuquares ; nos becos, e travessas, que
S. Carlos no seu primeiro Concilio Meòiolanense
oròenou, que as mulheres òe ruim tracto trouxessem alguma
exterior òifferença Ôe vestiòo, por onòe se òistinguissem
ôas honraòas ; e os Bispos seus suffraganeos ás obrigas-
sem a isso.> M. Bernardes^ Nova Floresta.
Os antigos foraes equiparavam as mulheres perdidas aos judeus.
]á em lhes desejar ruas especiaes,
como as judiarias d'estes, já em as obrigar, como
aquelles, a pagar portagem, passagem e costumagem.
2 Hoje a sua situação não é melhor. Ligadas
desde 1865 a um livrete ignominioso, revistadas como
carne de açougue, com ruas quasi suas, ellas, as mulheres perdidas,
são uma fonte de exploração da policia, que as vexa, que as multa,
que as prende. O
estado é o seu maior rufião.
Quando apoz a proclamação da Republica se quiz fazer algo, o Dr. Ricardo
]orge redigiu um regulamento que o leitor pode ver
a pag. 19-34 do vol. I dos Arquiuos do Instituto
Central de Higiene. Foi inútil. A Turquia já tem
um similar. Entre nós virá com as calendas porque
a estupidez e a sornice são macissas em Portugal.
A cortesã, aquella <K}uae alit corpus, corpore palam
sine delectu pecunia accepta»,* cuja generosidade Dau-
det compara á dos ladrões, 2 e de quem Gauthier diz
que só com ellas se é verdadeiro, é hoje ainda uma
pequena rainha do mundo. Passeia nas ruas de Lon-
dres e de Berlim, encontra-se nos estabelecimentos
de Vienna, nos bailes de Paris, nas praças de Ma-
drid, nos bas-fonõs de Lisboa. E' ao mesmo tempo
duqueza ou corista, florista ou manicure, camareira,
luveira, operaria, professora ou creada de servir.
Mora nas Avenidas e mora na Madragoa. Traja ren-
das de Alençon e põe a saia rodada das varinas. Tem
a pelle tratada a perfumes caros e tem sob os seios
OU NOS BRAÇOS A TATUAGEM DO NOME DO AMANTE OU CHULO
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